Neste período vemos fotos lindas nas redes de mães que puderam / conseguiram amamentar seus pimpolhos, mas ainda pouco se fala das dificuldades encontradas por outras mães ao amamentar.
Todos sabemos que amamentar é um ato de amor, mas eu não imaginava o quanto. Meu início com o Jorge foi muito, mas muito doloroso - consequentemente estressante, desgastante e frustrante. Mas não vou me repetir e expor aqui todas as dificuldades que tivemos. Leia AQUI meu relato completo de amamentação.
Minha ideia hoje é escrever sobre como mudar esse cenário, que tanto frustra as novas mamães. Como se já não bastassem os hormônios a mil, o cansaço de lidar com um recém nascido, toda pressão da família, casa cheia de visitas, ainda precisamos lidar com a frustração de não conseguir fazer algo teoricamente tão simples e natural, que é amamentar.
Bem, minha saga começou na própria maternidade (Perinatal de Laranjeiras). Meus seios começaram a sangrar lá mesmo, enquanto eu disfarçava a dor com um sorriso no rosto para receber as visitas. Conforme vocês podem ler no relato completo, as enfermeiras pouco ajudavam. Na realidade, pareciam mais enroladas que eu. Uma delas foi diretamente responsável pelo sangramento do meu seio direito, ao beliscar meu mamilo com força e brutalidade para fazer meu filho abocanhá-lo. Minha irmã, vendo aquilo, ficou completamente horrorizada.
Saí da maternidade extremamente frustrada e preocupada, pois não queria mais amamentar meu filho. A dor superava qualquer dor que eu já havia sentido na vida. Minha irmã, que sofreu igualmente e teve que aguentar essa dor por meses, me dizia que eu devia insistir pois, uma hora, meu mamilo iria "calejar" e a dor cessaria. Vale dizer que ela teve sua filha na Casa de Saúde São José, também uma maternidade de ponta, mas com uma enfermagem igualmente inábil à da Perinatal no quesito amamentação.
No quinto dia de vida do meu filho, eu não quis mais passar por aquilo. Fui ao Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira e milagrosamente resolvi o meu problema!
O que eu quero dizer com isso tudo? Que eu sonho mesmo é com o dia em que as equipes de enfermagem das maternidades de ponta farão um curso de reciclagem com as enfermeiras do Fernandes Figueira. Eu tive a chance de correr atrás, mas muitas mulheres não sabem da possibilidade de pedir ajuda profissional. Conseguem calcular quantas amamentações foram interrompidas devido ao despreparo das equipes de enfermagem das nossas maternidades? Se desde a primeira mamada eu tivesse sido bem orientada, meu puerpério teria sido muito mais leve. Já vi inúmeras mulheres desistirem de amamentar ou partirem pra soluções artificiais, que mais atrapalhavam do que ajudavam (como o bico de silicone, por exemplo). Com a desistência, além do bebê deixar de mamar o leite materno, a mãe ainda precisa lidar com a culpa, a frustração e o julgamento de terceiros. Muitas vivem anos frustradas por não terem amamentado seus filhos e se culpam quando, na realidade, deveriam culpar a péssima estrutura de enfermagem de lactário disponível nas maternidades.
Diariamente leio em grupos de mães que participo no Facebook relatos de mães desesperadas com a dor da pega errada ao amamentar. Muitas delas, assim como eu e minha irmã, não sabem que essa dor não deve ser encarada como algo normal, e que é possível pedir ajuda e não passar por ela. É muito difícil transpor essa barreira do "doer é normal, aguenta firme que uma hora passa", e me desculpem, do jeito que Jorge mamava com força, aquela dor me faria perder os mamilos! Uma hora a dor ia passar sim, pois a boca do neném vai crescendo e ele sozinho vai aprendendo a corrigir a pega, mas pera lá, eu não aguentaria mais uma mamada sequer com aquela dor. E agora o pior de tudo: vejo muitas mães com a melhor das intenções tentando ajudar as outras indicando pomadas famosas, que deviam ser abolidas do mercado (leia AQUI os motivos de contra-indicação de pomadas de Lanolina). Ou indicando casca de fruta, e as mais diversas receitas caseiras para acabar com a dor. Por favor, mamães, não façam mais isso. Se está doendo, procure ajuda profissional. Aqui no Rio de Janeiro temos o Banco de Leite do IFF, do Antônio Pedro, do Pedro Ernesto, do Carmela Dutra. Todos públicos, de graça. Basta se informar e correr atrás. Ainda no Facebook podemos contar também com a ajuda das moderadoras do Grupo Virtual de Amamentação (GVA). Elas me ajudaram demais!
Repito: eu gostaria imensamente que todas as mulheres tivessem acesso a informação, de qualidade acima de tudo. Acesso a ajuda profissional de qualidade nas maternidades, ainda nos primeiros contatos entre a mãe e o bebê. Minha dificuldade foi acertar a pega, mas conversando com amigas, tive contato com inúmeras outras questões que podem ocorrer nesse processo de amamentação e que as maternidades foram inábeis em lidar. Algumas delas tiveram acesso aos Bancos de Leite externos, outras, infelizmente, nem sabiam que eles existiam.
Então aproveitem a Semana Mundial de Aleitamento Materno e compartilhem esse texto com suas amigas mamães, grávidas ou tentantes. Se você está tendo qualquer problema com a amamentação e tem vontade de amamentar, busque ajuda, é fundamental e está acessível a todas.
Acima de tudo, comemorem a semana, mas saibam que nem só de Leite Materno vive um bebê. Uma "mãe de mamadeira" é tão mãe quanto uma "mãe de peito". Amamentar é sim muito importante, sem dúvida um ato de amor e doação. Mas lembre-se que o tempo passa, os nenéns desmamam e há coisas ainda muito mais desafiadoras nesse caminho lindo e ao mesmo tempo cheio de percalços que é a maternidade.
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| Diploma de Amamentação gentilmente cedido pelo GVA |
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| Eu e Jorge no nosso Mamasutra |


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