segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Empatia é quase amor

empatia
substantivo feminino
  1. 1.
    faculdade de compreender emocionalmente um objeto (um quadro, p.ex.).
  2. 2.
    capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela.
  3. 3.
    capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.


Vulgo "capacidade de se botar no lugar de outra pessoa", a empatia é artigo raro na humanidade, em especial no universo da maternidade. 

Sabemos que ser mãe não é nada fácil e, por vezes, nos pegamos desabafando com amigas sobre coisas que nos incomodam. Feliz aquela mãe que encontra uma escuta atenta e empática - o que, infelizmente, não é a maioria. 



Vamos à lista de situações comuns:


Situação 1 - O MARIDO

Mãe A: "Não sei mais o que eu faço para que meu marido compreenda que preciso de sua ajuda para cuidar do nosso filho, manter a casa em ordem..."

Mãe B: "Nossa, como eu sou sortuda, meu marido me ajuda em tudo!"



Situação 2 - A COMIDA

Mãe A: "Meu filho não come nada. Já tentei de tudo e nada funciona. To ficando desesperada!"

Mãe B: "Gente, se deixar, meu filho come até as paredes! Sabe que ontem ele bateu um pratão e ainda repetiu?!"



Situação 3 - O PUERPÉRIO

Mãe A: "Meu filho tem chorado demais de cólica. Não sei mais o que fazer. É muito sofrido vê-lo chorar tanto..."

Mãe B: "Meu filho é tão bonzinho! Não tem cólica, só ri, nunca chora."



De onde surgiu a ideia de falar sobre isso? Depois de ver uma menina fazer um desabafo sobre um marido super acomodado em um grande grupo de mães do Facebook, e me deparar com uma resposta idêntica à Mãe B da situação 1. Sim, as mães B de fato existem, o que é bizarro. A resposta da menina foi exatamente isso e ponto: uma mãe elevando seu ego diante de uma mãe destruída, cansada e decepcionada.

Poderia citar outras dez mil situações comuns, mas vamos direto ao que interessa: não, NÃO É LEGAL você ser a Mãe B. Fico muito contente mesmo pelo seu marido perfeito, pelo seu filho tranquilo e comilão, de verdade. Mas vamos ser um pouco mais sensíveis e empáticas?

Há quem diga: "Nossa, que frescura! Então eu não posso ser feliz só porque uma mãe está triste?". Claro que pode. Não só pode, como deve. Gente feliz é tudo de bom, emana boas energias. Mas quando uma mãe te procurar para desabafar, seja sensível ao seu problema. Ela não precisa saber naquele momento o quão perfeita é sua vida, pois falar da sua vida só mostra que você não esteve atenta ao seu desabafo. Ela precisa que você a ouça, que diga que a compreende, até que procure ajudá-la a encontrar alguma solução para o que ela está vivendo. É claro que ela fica feliz com sua felicidade, mas isso não irá ajudá-la neste momento. Dependendo do caso, ela ficará se perguntando o que fez de errado, ou aonde falhou para que tudo desse errado com ela. E chega de culpa na maternidade, não é mesmo? Não precisamos mais dela.

Sei que muitas vezes a falta de empatia surge de uma ingenuidade. Mas acho importante que mesmo essas mamães leiam esse texto e aprendam o significado dessa palavra tão em falta hoje em dia.





MAS CALMA, O OPOSTO TAMBÉM NÃO É LEGAL

Sim, o oposto também não é legal. Se uma mãe te procura para desabafar sobre seu problema, tentar mostrar que este é infinitamente menor que o seu, não ajuda. Menosprezar o sentimento de uma mãe não irá diminui-lo. Apenas fará com que ela o guarde para si, ou por não aguentar mais ver você competindo desgraça, ou por se sentir mal em estar reclamando de algo que, dada a situação, já nem parece mais tão grave assim - embora, pra ela, ainda seja.



A ESCUTA EMPÁTICA

Ocorre que a escuta empática está em falta nas conversas em geral. Muitas vezes vejo rolar uma queda de braço em rodas de conversa, onde todas querem desabafar, mas ninguém quer escutar. Quando escutam, ou se vangloriam de suas vidas perfeitas, ou preferem "disputar desgraça".

Então proponho uma coisa: Quando alguém te procurar para desabafar, pense que você foi escolhida para ouvir aquela história. Pense que você tem uma missão atrelada à escuta, a missão de levar conforto emocional para aquela mãe. Á ela não interessa que sua vida seja muito mais ou muito menos interessante que a dela. Se não tiver nada para dizer, diga apenas "Eu te entendo, e estou aqui por você". Simples, direto, efetivo.

Se você precisar desabafar sobre qualquer aspecto de sua vida, haverá espaço para isso também. É importante falar, mas também é muito importante ouvir. Compreender. Refletir de fato sobre o que está sendo dito. Se concentrar. ESTAR na conversa.


Vamos trabalhar mais a empatia? Afinal, empatia é quase amor :)

Meu recado para as mães de um recém nascido

Ultimamente muitas meninas têm me procurado para desabafar e procurar a resposta para a questão do choro dos bebês no seu primeiro trimestre de vida. Por isso, decidi escrever um texto sobre a minha experiência neste período, para acalmar o coração das mamães que vivem essa fase atualmente.



SERÁ QUE ELE CHORA DE FOME?

Vou contar aqui uma historinha. Eu fui mãe praticamente junto com outras duas amigas e nós, como três boas mamães de primeira viagem, conversávamos muito sobre o comportamento de nossos bebês. Com isso, descobri que, até os três meses de idade, só o Jorge, chorava pra tomar banho. Só o Jorge chorava pra trocar a fralda. Só o Jorge chorava pra pegar sol. Só o Jorge chorava pra trocar a roupa. Só o Jorge chorava pra toda e qualquer coisa que não fosse ficar pendurado nos meus peitos.

Me lembro que quando ele tinha por volta de 20 dias de vida telefonei pro pediatra (que estava em uma viagem de férias nos EUA) pedindo pelo amor de Deus alguma explicação pro choro incessante do meu filho. Após descartar fome, refluxo e APLV, o diagnóstico foi claro: cólica.

Tentei de tudo pra amenizar a cólica do meu filho, mas nada o fazia desgrudar do peito. Chamei uma especialista em shantala para me ensinar a técnica, passava o dia fazendo compressa de água quente na barriguinha, testei quase todas as receitas de vó, e nada.

As consultas mostravam que ele ganhava peso como um touro! Mas o grude continuava.

É claro que nessa época eu consultava minhas amigas e perguntava se os bebês delas também tinham esse grude, mas a resposta foi negativa. Por que então só o meu bebê chorava tanto?

Foi aí que pesquisei mais sobre a teoria da extero-gestação (ou o quarto trimestre da gestação). Resumidamente falando, a teoria descreve a sensação de estranhamento que o bebê tem do mundo e como ele se sente seguro com a mãe. Ele se pendura no peito buscando um conforto, segurança, e não necessariamente tem fome. Para quem quiser ler mais sobre a teoria, indico o texto do blog do GVA: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/teoria-da-extero-gestacao.html


Bem, dito isso, fica claro que o meu bebê estava vivendo uma fase normal para sua idade. Sei que é exaustivo para a mãe, desesperador às vezes, mas é uma fase. Chamamos de cólica, fome, mas na realidade tudo que nosso bebê quer é o nosso calor, o nosso conforto. Alguns bebês encaram relativamente bem o encontro com nosso mundo. Jorge certamente não foi um desses.

Eis no auge desse estresse, surgem os pitacos, até bem intencionados, mas mal informados:

"Mas será que esse menino não está com fome?"
"Por que você não experimenta dar uma mamadeira pra ver se ele passa a dormir a noite toda?"
"Isso é fome, o seu leite não está sustentando..."

Simplesmente pare. Não é nada disso. Nem todo choro é fome! Seu bebê, até bem pouco tempo atrás, vivia no conforto do seu útero, o único som que ele conhecia praticamente era o da sua voz. Como você espera que ele encare nosso mundo sorridente de uma hora para a outra?

Muitas mães que, até então, amamentavam exclusivamente o bebê no seio, neste momento dão uma mamadeira e notam que o choro cessa e a criança dorme. É aí então que elas têm a certeza de que o bebê chorava de fome e encerram sua amamentação exclusiva. Ocorre que, se havia ganho de peso adequado, você chegou a conclusão errada. Seu bebê não chorava de fome só porque se calou ao receber a mamadeira. Ele simplesmente dormiu pois ele já estava satisfeito com seu leite e ficou empanturrado com a mamadeira.

Se você deseja amamentar exclusivamente e seu bebê ganha peso adequadamente, esqueça o complemento e suas inseguranças quanto ao choro do seu bebê. Fique bastante com ele no peito, no colo. Já tive algumas maratonas de 6h com Jorge direto no peito, só alternando peito. Do direito pro esquerdo, do esquerdo pro direito e assim sucessivamente.

Ah! E neste ponto também acho importante citar uma coisa: não pense que seu leite acabou só porque seu bebê mamou os dois seios e eles estão murchos. O seio não é estoque, ele é fábrica! 80% do leite que seu bebê mama é produzido durante a mamada, de modo que o leite é, teoricamente, infinito. Não fosse assim, mulheres de seios pequenos não conseguiriam amamentar seus bebês, não é mesmo? Então esqueçam o mito do leite que acaba quando a mama está murcha.



ADIE AS VISITAS

Eu não tive condições de receber ninguém até Jorge completar três meses de vida. Minhas melhores amigas o viram na maternidade, e depois só quando essa fase mais conturbada passou. Sem estresse nem cerimônias.

Durante o período só recebi os familiares mais próximos e olhe lá. Eu simplesmente não convidava ninguém, e cheguei a negar a visita de uma tia super querida, pois eu não estava em condições.

Peça para o papai ajudar você nessa tarefa de adiar as visitas, para que você não tenha que lidar com a eventual insatisfação da pretensa visita. A regra número um é: não receba ninguém em casa se você não estiver em condições. Você e seu filho dependem de um ambiente tranquilo e harmonioso pra saírem bem desta fase.



MEU BEBÊ SÓ DORME NO MEU COLO. SERÁ QUE VAI FICAR MIMADO?

Outra coisa que desespera as mamães nessa fase é o sono do bebê, que ainda é super leve, e muitos só conseguem cochilar no colo da mãe. Bem, aqui cabem algumas observações.

A primeira delas é: ignore aquele tio mala que diz que seu bebê vai ficar mal acostumado se só ficar no colo. Isso não é nem um pouco verdade. Até os três meses de vida não existe manha. O bebê ainda nem se situou no mundo, imagine fazer manha! Pode ignorar os pitacos, seguir seus instintos e dar bastante colo. Lembre-se sempre: VOCÊ é a mãe. Por mais inexperiente que seja - ou que tentem te fazer sentir - só você conhece seu filho profundamente. Foi você quem o carregou por nove meses, é a você que ele reconhece como porto seguro, então você é quem decide o que é melhor para vocês dois. Ok? Botar um pouquinho de limite nos mais atirados não fará de você uma mamãe mal educada.

A segunda observação é: o sono de um bebê recém nascido carece de dois itens primordiais. Investimento e rendição. Isso mesmo. Você, mamãe, precisa investir no sono do seu filho. Precisa fazer de tudo e mais um pouco para que ele cochile, nem que você precise passar o dia inteiro com ele no colo. Sabe por que? Porque um recém nascido com sono fica ainda mais irritado, o que vai te deixar ainda mais estressada. E por que eu citei a rendição? Porque a palavra é essa mesma, se render. Seu filho só dorme com você deitada ao lado dele na cama? Faça isso. Deite por 1h ao lado dele na cama. Faça ele descansar. Se renda. Você vai ver que isso vai melhorar muito as coisas.

Eu demorei bastante a entender que meu filho precisava dormir. Na minha inquietude de manter a casa arrumada e a comida em dia, eu não me permitia investir e me render ao sono dele. Quando aprendi essas duas palavrinhas chaves, minha vida mudou. Eu investia e me rendia por uma hora ao lado dele e tinha duas horas com menos choro depois.

Se não desse pra fazer a comida, eu pedia fora. Se não desse pra arrumar a mesa da sala, paciência. Eu passei a ficar muito menos estressada quando compreendi que meu filho precisava dormir, mas precisava de mim para essa tarefa. Enquanto eu pusesse mil e uma barreiras neste caminho, ele não descansaria e eu sofreria as consequências.

Ainda sobre o sono do bebê,  compartilho aqui um link super especial que me fez entender que o meu filho precisava realmente descansar. O link trata sobre o EFEITO VULCÂNICO do sono e explica direitinho a importância das sonecas para o recém nascido - e para a mamãe dele.



USE E ABUSE DO SLING

O sling foi adquirido quando Jorge tinha vinte dias de vida. Comprei um wrap sling 100% algodão. Era auge do verão, mas usava mesmo assim. Ligava o ar condicionado e ficava com ele no sling para poder comer algo, por exemplo. Sem dúvida o sling e continua sendo um super aliado. Recomendo fortemente!



Dito isso, espero ter acalmado as mamães do primeiro trimestre de vida do bebê - ou do quarto trimestre da gestação. Quando Jorge fez três meses, tudo melhorou como um passe de mágica. Ele começou a interagir mais com o mundo e seu medo do desconhecido foi diminuindo. Conseguia focar mais nos brinquedos, nas cores, até nas minhas palavras. Foi ficando mais independente dia após dia, foi dormindo mais profundo. Foi espaçando as mamadas e ficando mais confiante.

Sei que fazemos muitos planos para a educação de nossos filhos. Sempre achei um absurdo o neném dormir com os pais na cama, mas eis que a cama compartilhada salvou e ainda salva minhas noites. Não teorizar muito faria muito bem às gestantes. Isso reduziria imensamente a quantidade de mães frustradas e ansiosas, que torcem para que os três primeiros meses passem logo e acabam não aproveitando esse período tão íntimo e delicioso. Conheça seu filho antes de teorizar. Esse é o principal recado que eu daria às gestantes.


A moral dessa história toda é: tudo passa! Sei que é repetitivo, pois todos dizem isso, mas é a maior verdade! E ficam as saudades da época de carrapatinho <3


Eu e Jorge, meu carrapatinho
Investimento e rendição <3
Namorando um pouquinho com mamãe no sling



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Pomadas de Lanolina - Por que não usar?

Quem amamenta ou amamentou, certamente já ouviu falar das pomadas de Lanolina existentes no mercado. A mais famosa delas, americana e disponível hoje em dia no mercado brasileiro, foi um grande catalizador para minha quase desistência de amamentar.

Há uma lenda urbana de que as pomadas de Lanolina ajudam a cicatrizar o mamilo ferido. Eu vos digo com toda certeza do mundo que isso não é verdade.

Essas pomadas não são cicatrizantes, elas funcionam como hidratantes naturais, que podem ser ingeridos pelo bebê. Não sendo cicatrizante, em nada ela irá te ajudar, exceto pela sensação de frescor ao passá-la no mamilo ferido após as mamadas e pela tranquilidade de não precisar retirá-la antes da mamada.

Ocorre que, além delas não ajudarem, acabam prejudicando a pega que já está errada, transformando tudo em uma bela bola de neve.

"Ué, não entendi".

Eu explico: se seu mamilo está ferido e a possibilidade de fungo está descartada, a pega do bebê no seu seio está errada. Ele não está abocanhando a auréola conforme deveria e, provavelmente, está mamando somente no bico. Também provavelmente você precisa esvaziar um pouco mais o seio e amolecer a auréola (de modo que ele consiga abocanhar a maior parte inferior da auréola). Se, após as mamadas, você usar essa pomada de lanolina, seu seio ficará escorregadio, de modo que a boquinha do seu bebê tornará a escorregar para o bico na próxima mamada e, assim, teoricamente, seu mamilo jamais irá sarar, iniciando a tal bola de neve que escrevi ali em cima.

Abandone esse conceito de pomada de lanolina. Sei o quanto é refrescante passá-la no mamilo ferido após as mamadas, mas ela só fará piorar ainda mais sua dor, pois aumentará a dificuldade do seu bebê em acertar a pega. Não são poucos os relatos que leio em grupos de mães no facebook de frustrações com a pomada. "Estou usando mas não está adiantando". Claro que não está adiantando, pelo contrário, a tendência é piorar ainda mais.

"Mas eu usei e me ajudou muito" - dirá a sua amiga. Me desculpe, mas não foi a pomada que ajudou, e sim, o neném que passou a pegar o seio corretamente. Posso garantir que a pomada de lanolina em nada ajudou nesse processo. Palmas para o neném que, apesar de mamar em um seio escorregadio, conseguiu ainda assim acertar a pega.

Além do mais, sua amiga que recomenda e defende com unhas e dentes a pomada talvez não saiba que seu bebê demorou para acertar a pega justamente por conta dela. A pomada funciona como um morde e assopra, sabe? Mas você pensa que quem está mordendo é o bebê, e não culpa a pomada em momento algum - a não ser que busque orientação adequada.

Quer uma solução cicatrizante e, o melhor, GRÁTIS? Passe seu próprio leite nos mamilos após cada mamada. Deixe secar naturalmente, fique sem sutiã, dispense as visitas. Se possível, faça um rasgo em uma camisa velha na região dos mamilos e, com essa camisa, pegue sol neles 15 minutos ao dia pela manhã e pela tarde. A combinação LM + SOL é milagrosa, posso garantir. A natureza é tão perfeita que fez o leite materno com poder cicatrizante também.

Além disso tudo, essas pomadas ainda podem causar entupimento de ducto, o que dói pra caramba.

Por esses motivos, as pomadas são contra indicadas pelos Bancos de Leite.

Se você está com dor, procure o banco de leite mais próximo de sua região. Aqui no Rio de Janeiro, eu fui e recomendo o Banco de Leite do Fernandes Figueira. Vale muito a pena, e eu descrevi minha ida ao BLH do IFF no meu relato completo de amamentação AQUI.

Também sempre indico os textos do GVA - Grupo Virtual de amamentação. Eles têm um grupo no Facebook (aqui) e um blog cheio de textos riquíssimos em informações de aleitamento (aqui o texto sobre correção de pega).

Não se deixe levar por apelos comerciais ou pelas dicas caseiras daquela sua amiga ou vizinha - super bem intencionada, mas mal informada. Não sacrifique você e sua amamentação com a desinformação.

Compartilhe esse texto com as amigas!

Um beijo da Mãe Apegada, que também passou por isso. ;)

Semana Mundial de Aleitamento Materno - e as dificuldades de amamentar

Esta semana estamos vivendo a Semana Mundial de Aleitamento Materno. O período reforça a importância do leite materno como alimento exclusivo até o sexto mês de vida do bebê e como parte alimentar até, no mínimo, os dois anos de idade do bebê.

Neste período vemos fotos lindas nas redes de mães que puderam / conseguiram amamentar seus pimpolhos, mas ainda pouco se fala das dificuldades encontradas por outras mães ao amamentar.

Todos sabemos que amamentar é um ato de amor, mas eu não imaginava o quanto. Meu início com o Jorge foi muito, mas muito doloroso - consequentemente estressante, desgastante e frustrante. Mas não vou me repetir e expor aqui todas as dificuldades que tivemos. Leia AQUI meu relato completo de amamentação.

Minha ideia hoje é escrever sobre como mudar esse cenário, que tanto frustra as novas mamães. Como se já não bastassem os hormônios a mil, o cansaço de lidar com um recém nascido, toda pressão da família, casa cheia de visitas, ainda precisamos lidar com a frustração de não conseguir fazer algo teoricamente tão simples e natural, que é amamentar.

Bem, minha saga começou na própria maternidade (Perinatal de Laranjeiras). Meus seios começaram a sangrar lá mesmo, enquanto eu disfarçava a dor com um sorriso no rosto para receber as visitas. Conforme vocês podem ler no relato completo, as enfermeiras pouco ajudavam. Na realidade, pareciam mais enroladas que eu. Uma delas foi diretamente responsável pelo sangramento do meu seio direito, ao beliscar meu mamilo com força e brutalidade para fazer meu filho abocanhá-lo. Minha irmã, vendo aquilo, ficou completamente horrorizada.

Saí da maternidade extremamente frustrada e preocupada, pois não queria mais amamentar meu filho. A dor superava qualquer dor que eu já havia sentido na vida. Minha irmã, que sofreu igualmente e teve que aguentar essa dor por meses, me dizia que eu devia insistir pois, uma hora, meu mamilo iria "calejar" e a dor cessaria. Vale dizer que ela teve sua filha na Casa de Saúde São José, também uma maternidade de ponta, mas com uma enfermagem igualmente inábil à da Perinatal no quesito amamentação.

No quinto dia de vida do meu filho, eu não quis mais passar por aquilo. Fui ao Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira e milagrosamente resolvi o meu problema!

O que eu quero dizer com isso tudo? Que eu sonho mesmo é com o dia em que as equipes de enfermagem das maternidades de ponta farão um curso de reciclagem com as enfermeiras do Fernandes Figueira. Eu tive a chance de correr atrás, mas muitas mulheres não sabem da possibilidade de pedir ajuda profissional. Conseguem calcular quantas amamentações foram interrompidas devido ao despreparo das equipes de enfermagem das nossas maternidades? Se desde a primeira mamada eu tivesse sido bem orientada, meu puerpério teria sido muito mais leve. Já vi inúmeras mulheres desistirem de amamentar ou partirem pra soluções artificiais, que mais atrapalhavam do que ajudavam (como o bico de silicone, por exemplo). Com a desistência, além do bebê deixar de mamar o leite materno, a mãe ainda precisa lidar com a culpa, a frustração e o julgamento de terceiros. Muitas vivem anos frustradas por não terem amamentado seus filhos e se culpam quando, na realidade, deveriam culpar a péssima estrutura de enfermagem de lactário disponível nas maternidades.

Diariamente leio em grupos de mães que participo no Facebook relatos de mães desesperadas com a dor da pega errada ao amamentar. Muitas delas, assim como eu e minha irmã, não sabem que essa dor não deve ser encarada como algo normal, e que é possível pedir ajuda e não passar por ela. É muito difícil transpor essa barreira do "doer é normal, aguenta firme que uma hora passa", e me desculpem, do jeito que Jorge mamava com força, aquela dor me faria perder os mamilos! Uma hora a dor ia passar sim, pois a boca do neném vai crescendo e ele sozinho vai aprendendo a corrigir a pega, mas pera lá, eu não aguentaria mais uma mamada sequer com aquela dor. E agora o pior de tudo: vejo muitas mães com a melhor das intenções tentando ajudar as outras indicando pomadas famosas, que deviam ser abolidas do mercado (leia AQUI os motivos de contra-indicação de pomadas de Lanolina). Ou indicando casca de fruta, e as mais diversas receitas caseiras para acabar com a dor. Por favor, mamães, não façam mais isso. Se está doendo, procure ajuda profissional. Aqui no Rio de Janeiro temos o Banco de Leite do IFF, do Antônio Pedro, do Pedro Ernesto, do Carmela Dutra. Todos públicos, de graça. Basta se informar e correr atrás. Ainda no Facebook podemos contar também com a ajuda das moderadoras do Grupo Virtual de Amamentação (GVA). Elas me ajudaram demais!

Repito: eu gostaria imensamente que todas as mulheres tivessem acesso a informação, de qualidade acima de tudo. Acesso a ajuda profissional de qualidade nas maternidades, ainda nos primeiros contatos entre a mãe e o bebê. Minha dificuldade foi acertar a pega, mas conversando com amigas, tive contato com inúmeras outras questões que podem ocorrer nesse processo de amamentação e que as maternidades foram inábeis em lidar. Algumas delas tiveram acesso aos Bancos de Leite externos, outras, infelizmente, nem sabiam que eles existiam.

Então aproveitem a Semana Mundial de Aleitamento Materno e compartilhem esse texto com suas amigas mamães, grávidas ou tentantes. Se você está tendo qualquer problema com a amamentação e tem vontade de amamentar, busque ajuda, é fundamental e está acessível a todas.

Acima de tudo, comemorem a semana, mas saibam que nem só de Leite Materno vive um bebê. Uma "mãe de mamadeira" é tão mãe quanto uma "mãe de peito". Amamentar é sim muito importante, sem dúvida um ato de amor e doação. Mas lembre-se que o tempo passa, os nenéns desmamam e há coisas ainda muito mais desafiadoras nesse caminho lindo e ao mesmo tempo cheio de percalços que é a maternidade.


Diploma de Amamentação gentilmente cedido pelo GVA


Eu e Jorge no nosso Mamasutra