terça-feira, 7 de julho de 2015

Sobre as dificuldades e as delícias de amamentar - Precisamos falar sobre isso

Quem me conhece sabe que sempre sonhei em ser mãe. E tive a oportunidade de ver de muito perto toda gravidez da minha irmã, o nascimento da Antonia e a dolorosa amamentação.

Sim, muitas pessoas não sabem, mas muitas mães sofrem demais amamentando seus filhos. O bico do seio racha, sangra, o neném mama leite com sangue, a dor é rasgante e isso pode se estender por alguns meses – no caso da minha irmã, foram três meses de suplício e choradeira ao dar o peito. Isso me assustava... é claro que, como quase toda mulher, eu sempre quis amamentar. Mas dizia para minha irmã, quando a via tremer, suar, chorar e gritar de dor: “Se comigo for assim, eu não amamento. Não vou aguentar essa dor”.

Pois bem. O choque me fez me cercar de todas as informações possíveis sobre amamentação durante minha gravidez. A primeira coisa que fiz foi comprar tudo que tinha de mais atual relacionado à amamentação: pomadas importadas, conchas rígidas, Mamare, bombas extratoras de leite e, porque não, de mamadeiras diversas. Tudo que me diziam que ajudava a aliviar aquela dor absurda – e eu só conseguia me lembrar das lágrimas da minha irmã – eu comprava sem nem olhar o preço.

Um dia, comentando num grupo de wapp que meu maior medo, depois do parto, seria a amamentação, minha amiga Bel, então residente do Instituto Fernandes Figueira (o qual chamarei carinhosamente de IFF), me falou que o Banco de Leite do IFF era referencia em amamentação, e me sugeriu ir lá ainda grávida pegar algumas orientações. Como a grana tava curta e eu não tinha condições de pagar por um curso de amamentação (sim, isso existe e 90% das grávidas fazem um curso sobre isso), resolvi ligar para o IFF e descobri que as palestras eram dadas as quartas e quintas de manha. Anotei na minha agenda e lá fui eu.

Minha primeira impressão foi de desconfiança... lá eles diziam: “Amamentar não dói. Se está doendo, é porque a pega está errada. Usar pomadas só prejudica. A melhor amamentação e a mais indolor, é a mais natural: neném no peito. O leite materno é o melhor cicatrizante que existe”. Bem, alguma coisa não estava batendo naquela história toda... pensei: “Minha irmã é medica, já participou de orientação de amamentação, ela sabia como era a pega correta e, ainda assim, sofreu por longos três meses!”. Saí do IFF um pouco decepcionada e até mesmo desconfiada. Achei que eles estavam forçando uma barra para não desistirmos da amamentação, omitindo o real sofrimento que a amamentação trazia. Nesse momento eu estava no meu oitavo mês de gestação, prestes a ganhar meu filho.

Bem, em dezembro de 2014 meu pequeno veio ao mundo. A primeira mamada foi tensa: a enfermeira da maternidade trouxe meu bebê logo após o parto e o colocou próximo ao meu seio. Ajeitou a boquinha do meu filho no meu seio. Ele sugou. Aquela primeira sensação foi super engraçada. Estranha. E um pouco dolorida.

A orientação foi amamentar meu filho quando ele quisesse, de modo que eu não deixasse passar de 3h sem mamar. A segunda mamada foi um desastre: eu não conseguia colocar a boquinha do meu filho no meu seio sem ajuda. Tive que chamar a enfermagem e, com o auxilio deles, consegui fazer com que meu filho mamasse. Achei muito importante não receber visita nesse primeiro dia. Primeiro porque meu parto foi cesárea e eu não podia falar por conta dos gases. Segundo porque acertar as mamadas é muito, mas muito difícil. No primeiro dia eu precisei chamar a enfermagem em cada mamada, pois eu não conseguia fazer meu filho mamar sozinha, o que já causa uma certa frustração. Além do mais, haviam profissionais boas e profissionais ruins e enroladas na equipe. Em uma das mamadas eu ouvi que o problema era meu seio e que meu filho teria dificuldades em pegá-lo devido a sua anatomia. Depois chamei outra enfermeira que rapidamente conseguiu coloca-lo para mamar. Bem... não preciso nem dizer mais nada.

No segundo dia eu já conseguia posicioná-lo sozinha, porém, começou a arder. O bico estava assado, avermelhado, e pensei: “Ainda bem que eu trouxe minha pomada e minhas conchas! Vou usá-las”. Adiantou alguma coisa? Não. Nada.

No terceiro dia eu já tinha mais prática em colocar meu filho no seio, mas ardia demais... era o dia de ir pra casa. Bem, neste dia eu estava empolgada por estar finalmente com meu filho em casa, apresenta-lo ao seu quartinho e ao seu novo lar. A dor ao amamentar era grande e na madrugada parecia que essa dor era elevada ao cubo, devido ao cansaço. No dia seguinte, no quarto dia de vida do meu filho, eu vi que aquela dor já era mais do que eu poderia suportar...

Falei com minha mãe e irmã que eu não aguentava mais aquilo. Era muita dor, muito mais do que eu podia imaginar. Elas me acariciavam o rosto e diziam: “Vai passar, aguenta firme”. Meu marido, sem saber o que fazer, desabafou com sua família, que também tentou ajudar com conselhos que não adiantavam nada. Amigas diziam: “Dói mesmo, mas depois de um mês melhora...”. Que??? Um mês?? Eu não aguentaria mais UMA mamada do meu filho. Dizer que depois de um mês aquela dor passaria realmente não ajudava em nada, pelo contrario, só me fazia querer abandonar o quanto antes o projeto “amamentação”. Eu gritava, assustava meu filho, que acabava soltando meu seio e me fazendo sofrer mais ainda. Meus bicos já estavam sangrando e feridos. Cada abocanhada do meu filho era um urro de dor. Quando ele terminava de mamar eu dava graças a Deus e rezava pro tempo não passar, queria que aquelas 3 horas de intervalo entre mamadas passassem muito lentamente. Cadê aquela imagem linda da campanha da mulher feliz e serena amamentando?

No quinto dia de vida do meu filho eu me lembrei da palestra do IFF. “Amamentar não dói”. Eu não entendia, pois eu estava fazendo tudo conforme orientação das enfermeiras da maternidade, minha irmã olhou e também falou que a pega estava correta. Então liguei para o IFF como quem está cobrando uma satisfação. “Se me disseram que amamentar não doía, porque eu estou sofrendo tanto? Eles mentiram pra mim!”. Pelo sim, pelo não, liguei chorando e disse que precisava de ajuda, pois não aguentava mais aquela dor. Tirei um pouco de leite com uma bomba manual que eu tinha – doeu quase que igual, mas um pouco menos. Dei aquele pouco leite que consegui extrair para o meu filho e corri para o IFF com ele. Minha irmã, minha mãe e até mesmo meu marido acharam aquela atitude precipitada, pois meu filho ainda não tinha nenhuma vacina e eu estaria expondo ele a um ambiente contaminado. Bem, o Banco de Leite do IFF fica em uma área reservada, então a exposição não seria assim tão grande. Além do mais, aquela era a única chance que eu tinha de continuar amamentando...

Cheguei lá quase vencendo as 3h sem mamar do meu filho. Fui ficando tensa, pois ele ficaria com fome e eu me recusava a dar o seio, tamanha dor. Fui rapidamente atendida por duas enfermeiras carinhosas, que me acalmaram, fizeram perguntas, examinaram meus seios e disseram: “Essa pomada que vc está passando prejudica a pega. A boca do seu filho escorrega para o bico, é claro que assim vai te machucar”. Meu atendimento levou 1h. Elas me examinaram, comentaram particularidades do meu seio e da minha produção de leite e, enquanto me faziam perguntas e me instruíam, eu chorava derrotada, antes mesmo dele vir mamar. Elas me consolavam e diziam: “Calma, vai dar certo”. Enquanto isso, Ricardo aguardava lá fora ansioso.

Enfim chegou a hora de botar meu filho para mamar, após todo apoio que elas me deram. Elas pediram que eu o pegasse no colo. Eu tremia de medo... afinal, por melhores que fossem as instruções delas, meus seios já estavam em carne viva! Era obvio que iria doer e eu não queria mais passar por aquilo! Sem ter muita opção, confiei naqueles anjos que ajeitaram meu filho nos meus braços, ajeitaram meus seios e...pluft! Ele abocanhou SEM DOR ALGUMA. Descobri que antes eu até estava fazendo certo, mas faltando corrigir alguns detalhes, que fizeram TODA diferença. Eu tinha umas particularidades que somente especialistas conseguiriam detectar, em casa eu jamais acertaria completamente. Ou seja, eu PRECISAVA ter ido ao IFF. Meu filho mamou por longos 40min, incansavelmente – e com fome – sem doer absolutamente nada!! Chorei de alivio. Elas me deram as mãos e disseram que era por casos como o meu que tudo valia a pena. Saímos ao encontro do Ricardo: eu, meu filho satisfeito e os anjos que me ajudaram. Elas conversaram com ele e pude ver o alivio em seus olhos... voltamos pra casa muito felizes e aliviados.

As próximas mamadas foram ótimas. Eu segui as instruções do IFF, dentre elas algumas foram bem particulares para o meu caso, mas outras são bem gerais e posso compartilhar:

- O neném precisa abocanhar o máximo da parte inferior de auréola, e estar com os lábios virados para fora, tipo boquinha de peixe. Se os seios estiverem muito cheios, é necessário esvaziá-los um pouco antes de cada mamada para que o neném consiga abocanhar o máximo de aureola possível. Caso o neném fique mamando no bico, além de machucar horrores, ele não estimula a produção de leite o que, a médio prazo, acaba fazendo com que a produção diminua e, consequentemente, o leite “seque”.

- Pomadas como Lanidrat e Lansinoh não são cicatrizantes, são hidratantes. Causam um conforto instantâneo para a mãe, porém, prejudicam a pega do neném, pois sua boquinha escorrega para o bico e acaba machucando. Além disso, elas causam entupimento de ducto. Eu tive e doeu muito!

- A concha rígida, por melhor que seja sua higienização, mantem o seio úmido e pode causar fungo. Uma amiga teve e a dor era absurda, provavelmente até maior do que a dor da pega incorreta.

- Idem Mamare, pode causar fungo. No dia que estive lá, tinha uma moça com fungo devido ao Mamare e, nossa, eu não queria estar na pele dela...

- O bico de silicone na maior parte das vezes impede que o neném abocanhe grande parte da aureola. Com isso, ele pode não estimular corretamente a produção de leite.

- O melhor cicatrizante que existe é o conjunto Leite Materno + Sol. Isso mesmo. Nada de pomadas. Em dois dias meus seios estavam novos em folha, mas é preciso corrigir a pega, senão não adianta nada.

De madrugada, com o cansaço, a coisa desandou novamente. No dia seguinte eu estava desanimada, chorando novamente e sentindo dor. Juntei forças e liguei para o IFF novamente. Consegui novamente consulta para o mesmo dia e, dessa vez, fui atendida por uma enfermeira e uma psicóloga. Foram 2 horas de consulta. Recebi informações valiosíssimas! Claro que chorei novamente de medo, dor e, posteriormente, de alivio, uma vez que meu filho conseguiu mamar lá corretamente e não senti mais dor. Voltamos pra casa ainda mais confiantes e, de lá pra cá, tudo correu na mais perfeita ordem.

Por que expus isso aqui? Porque muitas mulheres, mas muitas mesmo, acreditam que essa dor é normal e vai passar naturalmente depois de um tempo. É isso que nossas amigas, mães, irmãs, sogras, e pessoas que, infelizmente não tiveram a orientação correta, nos dizem. Até pode ser que a dor passe sozinha, afinal, a boquinha dele vai crescendo e ele é esperto o suficiente para encontrar uma maneira de mamar que resulte em um maior fluxo de leite para ele – a posição correta. Mas talvez aí seja tarde demais. Pode ser que quando essa dor passar seu filho tenha mamado “errado” por tanto tempo que sua produção de leite já não esteja mais acompanhando seu crescimento, devido ao estimulo ineficiente. Pode ser que a dor seja tanta que você não consiga esperar passar e acabe optando pelo leite artificial na mamadeira. Pode ser que você fique regulando horário para amamentar seu filho devido à dor e, assim, ele não ganhe o peso que precisa. Enfim, podem ser tantas coisas... que eu precisava divulgar essa alternativa que nós temos, o IFF! Nem todas as cidades brasileiras contam com um Banco de Leite, então podemos dizer que somos privilegiadas por podermos contar com eles.

Conheço sim alguns casos em que o IFF não foi eficaz em resolver. Mas passei a conhecer MUITO mais casos de sucesso. Nem todos os problemas são de pega, existem diversos tipos de dificuldades que surgem nesse processo confuso que é a amamentação, e no IFF encontrei anjos capacitados técnica e emocionalmente para ajudar.

Sei que muitas dificuldades ainda podem surgir na amamentação do Jorge, e muitas provavelmente surgirão na amamentação de meus próximos filhos. Mas só de saber que podemos contar com o IFF, fico aliviada e confiante.

Moral da historia: não sofra desnecessariamente. Não gaste dinheiro com artefatos para amamentação. O IFF não mentiu para mim quando disse que a amamentação mais natural seria a menos sofrida.

E finalmente deixo aqui todo meu respeito a todas as mães: as do leite materno e as do leite artificial. As da cesárea, as do parto normal e as do parto natural. Só quem é mãe sabe o quão dolorido e frustrante é esse caminho louco que percorremos, mas que fazemos com gosto e muito amor.

Um beijo,
Mãe do Jorge.


Amamentando o Jorge, já com seus seis meses na foto <3

2 comentários:

  1. Olá tudo bem? Estou com esse probleminha de ducto entupido. Como vc resolveu? Minha auréola é muito grande e tenho dificuldade de saber se minha bebê está com a pega correta, mas acredito que sim pois não tenho machucados no mamilo,porque será então que os ductos estão entupidos? Vou hj no banco de leite. Agradeço a atenção. Juice

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  2. Eu tô aqui chorando lendo seu relato. Minha bebê tem 11 dias e amamentar tem sido minha tortura diária. Já fui ao banco de leite e a pega dela está correta. Mas dói, como dói! Dói, eu choro, me esquivo de colocar a boquinha dela no meu seio e eu só penso em desistir. Depois da ida ao banco melhorou bastante, mas a dor ainda é grande. Seu relato sincero me deu forças pra acreditar que a ajuda certa pode mudar isso. Tentarei ir ao IFF. Muito obrigada por compartilhar sua história. Muita saúde pro Jorge.

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