Quem me conhece sabe que
sempre sonhei em ser mãe. E tive a oportunidade de ver de muito perto toda
gravidez da minha irmã, o nascimento da Antonia e a dolorosa amamentação.
Sim, muitas pessoas não sabem, mas muitas mães sofrem demais
amamentando seus filhos. O bico do seio racha, sangra, o neném mama leite com
sangue, a dor é rasgante e isso pode se estender por alguns meses – no caso da
minha irmã, foram três meses de suplício e choradeira ao dar o peito. Isso me
assustava... é claro que, como quase toda mulher, eu sempre quis amamentar. Mas
dizia para minha irmã, quando a via tremer, suar, chorar e gritar de dor: “Se
comigo for assim, eu não amamento. Não vou aguentar essa dor”.
Pois bem. O choque me fez me cercar de todas as informações
possíveis sobre amamentação durante minha gravidez. A primeira coisa que fiz
foi comprar tudo que tinha de mais atual relacionado à amamentação: pomadas
importadas, conchas rígidas, Mamare, bombas extratoras de leite e, porque não,
de mamadeiras diversas. Tudo que me diziam que ajudava a aliviar aquela dor
absurda – e eu só conseguia me lembrar das lágrimas da minha irmã – eu comprava
sem nem olhar o preço.
Um dia, comentando num grupo de wapp que meu maior medo, depois
do parto, seria a amamentação, minha amiga Bel, então residente do Instituto
Fernandes Figueira (o qual chamarei carinhosamente de IFF), me falou que o
Banco de Leite do IFF era referencia em amamentação, e me sugeriu ir lá ainda
grávida pegar algumas orientações. Como a grana tava curta e eu não tinha
condições de pagar por um curso de amamentação (sim, isso existe e 90% das
grávidas fazem um curso sobre isso), resolvi ligar para o IFF e descobri que as
palestras eram dadas as quartas e quintas de manha. Anotei na minha agenda e lá
fui eu.
Minha primeira impressão foi de desconfiança... lá eles diziam:
“Amamentar não dói. Se está doendo, é porque a pega está errada. Usar pomadas
só prejudica. A melhor amamentação e a mais indolor, é a mais natural: neném no
peito. O leite materno é o melhor cicatrizante que existe”. Bem, alguma coisa
não estava batendo naquela história toda... pensei: “Minha irmã é medica, já
participou de orientação de amamentação, ela sabia como era a pega correta e,
ainda assim, sofreu por longos três meses!”. Saí do IFF um pouco decepcionada e
até mesmo desconfiada. Achei que eles estavam forçando uma barra para não
desistirmos da amamentação, omitindo o real sofrimento que a amamentação
trazia. Nesse momento eu estava no meu oitavo mês de gestação, prestes a ganhar
meu filho.
Bem, em dezembro de 2014 meu pequeno veio ao mundo. A primeira
mamada foi tensa: a enfermeira da maternidade trouxe meu bebê logo após o parto
e o colocou próximo ao meu seio. Ajeitou a boquinha do meu filho no meu seio.
Ele sugou. Aquela primeira sensação foi super engraçada. Estranha. E um pouco
dolorida.
A orientação foi amamentar meu filho quando ele quisesse, de modo que eu não deixasse passar de 3h sem mamar. A segunda mamada foi um desastre: eu não conseguia colocar a boquinha do meu filho no meu seio sem ajuda. Tive que chamar a enfermagem e, com o auxilio deles, consegui fazer com que meu filho mamasse. Achei muito importante não receber visita nesse primeiro dia. Primeiro porque meu parto foi cesárea e eu não podia falar por conta dos gases. Segundo porque acertar as mamadas é muito, mas muito difícil. No primeiro dia eu precisei chamar a enfermagem em cada mamada, pois eu não conseguia fazer meu filho mamar sozinha, o que já causa uma certa frustração. Além do mais, haviam profissionais boas e profissionais ruins e enroladas na equipe. Em uma das mamadas eu ouvi que o problema era meu seio e que meu filho teria dificuldades em pegá-lo devido a sua anatomia. Depois chamei outra enfermeira que rapidamente conseguiu coloca-lo para mamar. Bem... não preciso nem dizer mais nada.
No segundo dia eu já conseguia posicioná-lo sozinha, porém,
começou a arder. O bico estava assado, avermelhado, e pensei: “Ainda bem que eu
trouxe minha pomada e minhas conchas! Vou usá-las”. Adiantou alguma coisa? Não.
Nada.
No terceiro dia eu já tinha mais prática em colocar meu filho no
seio, mas ardia demais... era o dia de ir pra casa. Bem, neste dia eu estava
empolgada por estar finalmente com meu filho em casa, apresenta-lo ao seu
quartinho e ao seu novo lar. A dor ao amamentar era grande e na madrugada
parecia que essa dor era elevada ao cubo, devido ao cansaço. No dia seguinte,
no quarto dia de vida do meu filho, eu vi que aquela dor já era mais do que eu
poderia suportar...
Falei com minha mãe e irmã que eu não aguentava mais aquilo. Era
muita dor, muito mais do que eu podia imaginar. Elas me acariciavam o rosto e
diziam: “Vai passar, aguenta firme”. Meu marido, sem saber o que fazer,
desabafou com sua família, que também tentou ajudar com conselhos que não
adiantavam nada. Amigas diziam: “Dói mesmo, mas depois de um mês melhora...”.
Que??? Um mês?? Eu não aguentaria mais UMA mamada do meu filho. Dizer que
depois de um mês aquela dor passaria realmente não ajudava em nada, pelo
contrario, só me fazia querer abandonar o quanto antes o projeto “amamentação”.
Eu gritava, assustava meu filho, que acabava soltando meu seio e me fazendo
sofrer mais ainda. Meus bicos já estavam sangrando e feridos. Cada abocanhada
do meu filho era um urro de dor. Quando ele terminava de mamar eu dava graças a
Deus e rezava pro tempo não passar, queria que aquelas 3 horas de intervalo
entre mamadas passassem muito lentamente. Cadê aquela imagem linda da campanha
da mulher feliz e serena amamentando?
No quinto dia de vida do meu filho eu me lembrei da palestra do
IFF. “Amamentar não dói”. Eu não entendia, pois eu estava fazendo tudo conforme
orientação das enfermeiras da maternidade, minha irmã olhou e também falou que
a pega estava correta. Então liguei para o IFF como quem está cobrando uma
satisfação. “Se me disseram que amamentar não doía, porque eu estou sofrendo
tanto? Eles mentiram pra mim!”. Pelo sim, pelo não, liguei chorando e disse que
precisava de ajuda, pois não aguentava mais aquela dor. Tirei um pouco de leite
com uma bomba manual que eu tinha – doeu quase que igual, mas um pouco menos.
Dei aquele pouco leite que consegui extrair para o meu filho e corri para o IFF
com ele. Minha irmã, minha mãe e até mesmo meu marido acharam aquela atitude
precipitada, pois meu filho ainda não tinha nenhuma vacina e eu estaria expondo
ele a um ambiente contaminado. Bem, o Banco de Leite do IFF fica em uma área
reservada, então a exposição não seria assim tão grande. Além do mais, aquela
era a única chance que eu tinha de continuar amamentando...
Cheguei lá quase vencendo as 3h sem mamar do meu filho. Fui
ficando tensa, pois ele ficaria com fome e eu me recusava a dar o seio, tamanha
dor. Fui rapidamente atendida por duas enfermeiras carinhosas, que me acalmaram,
fizeram perguntas, examinaram meus seios e disseram: “Essa pomada que vc está
passando prejudica a pega. A boca do seu filho escorrega para o bico, é claro
que assim vai te machucar”. Meu atendimento levou 1h. Elas me examinaram,
comentaram particularidades do meu seio e da minha produção de leite e,
enquanto me faziam perguntas e me instruíam, eu chorava derrotada, antes mesmo
dele vir mamar. Elas me consolavam e diziam: “Calma, vai dar certo”. Enquanto
isso, Ricardo aguardava lá fora ansioso.
Enfim chegou a hora de botar meu filho para mamar, após todo apoio que elas me deram. Elas pediram que eu o pegasse no colo. Eu tremia de medo... afinal, por melhores que fossem as instruções delas, meus seios já estavam em carne viva! Era obvio que iria doer e eu não queria mais passar por aquilo! Sem ter muita opção, confiei naqueles anjos que ajeitaram meu filho nos meus braços, ajeitaram meus seios e...pluft! Ele abocanhou SEM DOR ALGUMA. Descobri que antes eu até estava fazendo certo, mas faltando corrigir alguns detalhes, que fizeram TODA diferença. Eu tinha umas particularidades que somente especialistas conseguiriam detectar, em casa eu jamais acertaria completamente. Ou seja, eu PRECISAVA ter ido ao IFF. Meu filho mamou por longos 40min, incansavelmente – e com fome – sem doer absolutamente nada!! Chorei de alivio. Elas me deram as mãos e disseram que era por casos como o meu que tudo valia a pena. Saímos ao encontro do Ricardo: eu, meu filho satisfeito e os anjos que me ajudaram. Elas conversaram com ele e pude ver o alivio em seus olhos... voltamos pra casa muito felizes e aliviados.
As próximas mamadas foram ótimas. Eu segui as instruções do IFF,
dentre elas algumas foram bem particulares para o meu caso, mas outras são bem
gerais e posso compartilhar:
- O neném precisa abocanhar o máximo da parte inferior de auréola, e estar com os lábios virados para fora, tipo boquinha de peixe. Se os seios estiverem muito cheios, é necessário esvaziá-los um pouco antes de cada mamada para que o neném consiga abocanhar o máximo de aureola possível. Caso o neném fique mamando no bico, além de machucar horrores, ele não estimula a produção de leite o que, a médio prazo, acaba fazendo com que a produção diminua e, consequentemente, o leite “seque”.
- Pomadas como Lanidrat e Lansinoh não são cicatrizantes, são
hidratantes. Causam um conforto instantâneo para a mãe, porém, prejudicam a
pega do neném, pois sua boquinha escorrega para o bico e acaba machucando. Além
disso, elas causam entupimento de ducto. Eu tive e doeu muito!
- A concha rígida, por melhor que seja sua higienização, mantem
o seio úmido e pode causar fungo. Uma amiga teve e a dor era absurda,
provavelmente até maior do que a dor da pega incorreta.
- Idem Mamare, pode causar fungo. No dia que estive lá, tinha
uma moça com fungo devido ao Mamare e, nossa, eu não queria estar na pele
dela...
- O bico de silicone na maior parte das vezes impede que o neném
abocanhe grande parte da aureola. Com isso, ele pode não estimular corretamente
a produção de leite.
- O melhor cicatrizante que existe é o conjunto Leite Materno +
Sol. Isso mesmo. Nada de pomadas. Em dois dias meus seios estavam novos em
folha, mas é preciso corrigir a pega, senão não adianta nada.
De madrugada, com o cansaço, a coisa desandou novamente. No dia
seguinte eu estava desanimada, chorando novamente e sentindo dor. Juntei forças
e liguei para o IFF novamente. Consegui novamente consulta para o mesmo dia e,
dessa vez, fui atendida por uma enfermeira e uma psicóloga. Foram 2 horas de
consulta. Recebi informações valiosíssimas! Claro que chorei novamente de medo,
dor e, posteriormente, de alivio, uma vez que meu filho conseguiu mamar lá
corretamente e não senti mais dor. Voltamos pra casa ainda mais confiantes e,
de lá pra cá, tudo correu na mais perfeita ordem.
Por que expus isso aqui? Porque muitas mulheres, mas muitas
mesmo, acreditam que essa dor é normal e vai passar naturalmente depois de um
tempo. É isso que nossas amigas, mães, irmãs, sogras, e pessoas que,
infelizmente não tiveram a orientação correta, nos dizem. Até pode ser que a
dor passe sozinha, afinal, a boquinha dele vai crescendo e ele é esperto o
suficiente para encontrar uma maneira de mamar que resulte em um maior fluxo de
leite para ele – a posição correta. Mas talvez aí seja tarde demais. Pode ser
que quando essa dor passar seu filho tenha mamado “errado” por tanto tempo que
sua produção de leite já não esteja mais acompanhando seu crescimento, devido
ao estimulo ineficiente. Pode ser que a dor seja tanta que você não consiga
esperar passar e acabe optando pelo leite artificial na mamadeira. Pode ser que
você fique regulando horário para amamentar seu filho devido à dor e, assim,
ele não ganhe o peso que precisa. Enfim, podem ser tantas coisas... que eu
precisava divulgar essa alternativa que nós temos, o IFF! Nem todas as cidades
brasileiras contam com um Banco de Leite, então podemos dizer que somos
privilegiadas por podermos contar com eles.
Conheço sim alguns casos em que o IFF não foi eficaz em
resolver. Mas passei a conhecer MUITO mais casos de sucesso. Nem todos os
problemas são de pega, existem diversos tipos de dificuldades que surgem nesse
processo confuso que é a amamentação, e no IFF encontrei anjos capacitados
técnica e emocionalmente para ajudar.
Sei que muitas dificuldades ainda podem surgir na amamentação do
Jorge, e muitas provavelmente surgirão na amamentação de meus próximos filhos.
Mas só de saber que podemos contar com o IFF, fico aliviada e confiante.
Moral da historia: não sofra desnecessariamente. Não gaste
dinheiro com artefatos para amamentação. O IFF não mentiu para mim quando disse
que a amamentação mais natural seria a menos sofrida.
E finalmente deixo aqui todo meu respeito a todas as mães: as do
leite materno e as do leite artificial. As da cesárea, as do parto normal e as
do parto natural. Só quem é mãe sabe o quão dolorido e frustrante é esse
caminho louco que percorremos, mas que fazemos com gosto e muito amor.
Um
beijo,
Mãe do Jorge.
Mãe do Jorge.
Amamentando o Jorge, já com seus seis meses na foto <3

Olá tudo bem? Estou com esse probleminha de ducto entupido. Como vc resolveu? Minha auréola é muito grande e tenho dificuldade de saber se minha bebê está com a pega correta, mas acredito que sim pois não tenho machucados no mamilo,porque será então que os ductos estão entupidos? Vou hj no banco de leite. Agradeço a atenção. Juice
ResponderExcluirEu tô aqui chorando lendo seu relato. Minha bebê tem 11 dias e amamentar tem sido minha tortura diária. Já fui ao banco de leite e a pega dela está correta. Mas dói, como dói! Dói, eu choro, me esquivo de colocar a boquinha dela no meu seio e eu só penso em desistir. Depois da ida ao banco melhorou bastante, mas a dor ainda é grande. Seu relato sincero me deu forças pra acreditar que a ajuda certa pode mudar isso. Tentarei ir ao IFF. Muito obrigada por compartilhar sua história. Muita saúde pro Jorge.
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