Bem, hoje eu quero falar sobre o machismo que naturalmente já ronda as mulheres, mas parece que se potencializa ao infinito com relação às mães.
Muitos já sabem, alguns não, e quero ainda fazer um post e um vídeo exclusivamente sobre isso, mas eu dei um tempo na minha carreira pelo meu filho e por mim. Tive quatro meses de licença maternidade, mais férias, e não estava preparada para voltar ao trabalho e passar longas 12h por dia longe do meu bebê, que mal virava de bruços ainda. Por isso, pedi uma licença sem vencimentos de mais alguns meses, e atualmente ainda gozo deste período.
Dia desses eu estava conversando com um amigo muito querido da empresa por WhatsApp e ele me perguntou se eu retornarei ou não. Disse que sim, claro, quero muito voltar a trabalhar (se o mercado e a crise permitirem, claro). E ele sutilmente me aconselhou a já ir "mudando a chave" de mãe para mulher trabalhadora.
Fiquei pensando nesse toque, indireta, ou seja lá o que foi de fato. Temos intimidade e amizade o suficiente para saber que ele quer o meu bem, e não sei ao certo se ele estava reproduzindo um comportamento machista ou se ele me aconselhava porque "o mundo é assim desde que o mundo é mundo, então é melhor você se adaptar". Fato é que a crítica velada foi às minhas postagens do Facebook e à forma como "mudei depois que virei mãe".
Nesse momento, dei uma varredura geral na minha timeline do Facebook. E o que encontrei já era o esperado: sim, há meses eu só posto sobre maternidade, amamentação, criação com apego. Há meses as poucas fotos que eu posto são com meu filho, inclusive minha foto de perfil era amamentando meu bebê. Particularmente acho mais interessante que as discussões políticas ou futebolísticas que, nos dias de hoje, não agregam nada, em sua maioria só incitam o ódio.
Sim, eu sou mãe. E eu não deveria me constranger ao mostrar isso em público.
Tem gente que apoia o Bolsonaro em público sem o menor constrangimento.
É aí que entra o pensamento comum, injusto, machista, escroto: Quem levará a sério no escritório uma mulher que assume publicamente seu papel de mãe, ainda que ela esteja de licença? Afinal, a funcionária mãe é quem precisa sair mais cedo para buscar seu filho na creche. É ela quem se ausenta quando o filho tá doente.
Mas isso é de graça? Não, não é! No meu caso, conto com um banco de horas. E se eu me ausentar, simplesmente serei descontada ou terei que compensar as horas. E uma mãe compensando horas, na maioria das vezes, é muito mais penoso que um pai. Porque muitas mães chegam em casa e precisam dar conta da comida, da roupa, da casa. Muitas contam com um marido-zero-à-esquerda em casa, ou são mães solteiras. Então por que as pessoas - mais especificamente os homens - se incomodam tanto com o fato de trabalhar com uma mãe? Por que uma mãe precisa constantemente provar sua competência perante os homens em suas empresas, para continuar na batalha? É cansativo, eu diria exaustivo, ter que provar dia após dia que você merece a confiança dos seus superiores, por ser mulher, por ser mãe. É como se a mãe passasse uma imagem de fragilidade, quando na verdade, o que acontece na prática é justamente o oposto.
Eu gostaria muito de mudar essa percepção. Venho dizer que uma mãe é um ser que automaticamente aprende - muitas vezes na marra - a equilibrar 50 pratos ao mesmo tempo. Uma mãe tem responsabilidade estampada no rosto. Tem empatia aflorada. Se você precisa que uma tarefa seja cumprida com rigor, em tempo recorde, chame uma mãe para fazê-la. Ela está acostumada a tocar muitos projetos simultâneos, com seriedade e qualidade. E, principalmente, com amor.
A mãe lida melhor do que ninguém com a pressão. Melhor do que qualquer homem. Deixou de ser aquela menina ingênua e virou leoa. A mãe é a mulher que aprendeu a brigar, a defender sua equipe com unhas e dentes. A mãe é pratica, por necessidade, por instinto. Sem deixar de ser perfeccionista.
E aí no meio desse papo todo eu me lembrei de um colega, homem, que há uns dois ou três anos tirou também uma licença sem vencimentos por um ano para viajar o mundo. Um ano sabático. Ninguém questionou nada sobre sua vida, ou o aconselhou a "virar a chave" para voltar ao trabalho. Ele não passou a ter sua capacidade técnica questionada porque tirou um ano de licença para viajar sem rumo por aí. Pelo contrario: quando voltou ao batente, foi super bem recebido por pessoas extremamente interessadas no que ele havia feito ao longo desse ano.
Já eu, bem... Eu sou a mulher que virou mãe e decidiu mudar a vida por isso. Sou a mulher fraca que decidiu "viver pro filho" e se esquecer do mundo. Não sirvo pra minha profissão (majoritariamente masculina) porque preferi, por alguns meses, trocar fralda ao invés de engrandecer minha carreira, solidificada com muito suor.
E eu pergunto: pode uma viagem ser mais importante do que a missão de criar um filho? Não quero desmerecer o ano sabático do meu colega mas por que tentam a toda hora desmerecer e diminuir minha missão de mãe, de formadora de personalidade, de educadora de um SER HUMANO, que será o futuro do nosso mundão?
A maternidade fez de mim uma pessoa muito melhor em todos os sentidos. Como ser humano, como profissional. Como parte do nosso planeta.
Quero voltar ao mercado de trabalho, pois acho que me fará bem. Sinto falta do meu salário, dos colegas, do meu trabalho. Mas não tenho dúvidas de que o trabalho de uma mãe exclusiva é muito mais relevante pro mundo que o trabalho que eu desempenharei na minha empresa. É a formação de um cidadão e não há trabalho mais cheio de responsabilidade que esse.
Não, eu ainda não virei a chave. Por isso decidi escrever esse texto.
E me desculpem, mas acho o legado da minha licença muito mais importante que uma viagem ou que "apenas" trocar fraldas.
Pensem nisso.
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